Vivemos uma época estranhamente difícil e confortável.
De fato, ficar protegido, seguro, com acesso a todos os produtos e serviços que o capitalismo nos oferece, aparentemente, é muito confortável.
Principalmente quando acreditamos, iludidos, que tudo isso é fruto do nosso merecimento. Afinal de contas, a grande maioria das pessoas, que não está vivendo confortavelmente em suas gaiolas douradas, é porque não se esforçaram, não aproveitaram as oportunidades, não são predestinadas e, mesmo quando usam a desculpa de terem nascido em condições desfavoráveis, obviamente, nada podemos fazer porque “Deus sabe muito bem porque fez isso com elas!”
Essa é a triste realidade que está assolando a humanidade! Um egoísmo sem fim, apesar de discursos de apoio a liberdade, a igualdade e a fraternidade, são como fogos de artifício, pura pirotecnia.
Olhar para fora da gaiola dourada não é tarefa nada fácil. A gaiola nos anestesia, nos deixa medrosos, egoístas ou esperançosos (leia meu artigo sobre a diferença entre esperança e o desejo da alma neste site em Artigos (“Qual a necessidade de preencher o que falta em nós?”), esperando por um futuro melhor, fazendo-nos ficar de braços cruzados no aqui e agora.
Para aqueles que estão em suas gaiolas, em alguns casos até acontece o olhar para fora, mas é extremamente difícil sair delas para interagir com o outro ou alçar um voo no vazio. E aqui tomo a liberdade de citar Rubem Alves, brilhante escritor e teólogo brasileiro, que da mesma forma descreveu brilhantemente o simbolismo da gaiola como nossas próprias amarras:
“ Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas.” Grifos meus.
Através da Psicoterapia e Arteterapia é possível a ampliação da consciência que nos dá autoconhecimento e autoestima para tentarmos o voo fora da gaiola! O objetivo da Arteterapia é que surjam símbolos e que esses transformem os sintomas emocionais e físicos, e que a cura da alma e do corpo seja possível.
Para Jung, Psicoterapeuta, Psiquiatra e fundador da Psicologia Analítica Junguiana, as neuroses podem levar o indivíduo a se verem consigo mesmo: “só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar.” (JUNG, 2011, v. 7/2, par. 258). Por isso, a Psicoterapia não pode ser encarada apenas como um processo de eliminação de sintomas, mas para o redirecionamento das crenças e atitudes diante da vida. Quando o processo analítico acontece de fato, mortes simbólicas são vivenciadas, desconstrução das crenças acontecem, a capacidade de ressignificar a vida é possível.
EDMÉIA MARIANI Especialista em Psicologia Junguiana e Arteterapeuta.
