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Qual a necessidade de preencher a parte que falta em nós?

Qual a necessidade de preencher a parte que falta em nós?
Você lembra ou já ouviu falar do livro “A parte que falta” de Shel Silverstein, que fez um estrondoso sucesso em meados de 2018, sobre uma simpática bolinha que vai rolando pela vida em busca de algo que lhe falta? Pois é, apesar do sucesso ser recente, a história é de 1976 e o autor, nascido em 1930, pareceu apenas reeditar um tema que é ancestral e atual ao mesmo tempo: o ser humano é um ser faltante e está fadado a nunca se encontrar completo.

Isso é o que a Psicologia Analítica ou Junguiana chama de angústia essencial ou angústia existencial. Entretanto, este desejo de preencher o que lhe falta é o que impulsionou o homem para a vida e que o leva a ser. É claro que, devido à pressão do consumo, houve a substituição dos desejos da alma pelas necessidades do corpo. Aqui vemos a grande diferença, pois, as necessidades materiais são possíveis de serem saciadas, enquanto os desejos, ahhh, esses jamais.

Desejar é buscar vida, sentido e significado. Daí porque um homem desejante é um ser saudável, mas isso não significa que desejar e ter esperança sejam a mesma coisa. Eles não devem ser confundidos e eu vou tentar separar as coisas aqui:

A esperança diminui a possibilidade de felicidade do agora. Deixar de esperar implica aprender a lidar com a realidade tal como ela é, e a tirar proveito de todas as possibilidades que o estar inserido no presente possibilita. Isso não impede que as pessoas façam planos, assumam compromissos e não abram mão de suas ideologias em busca de um mundo melhor. Mesmo assim, todas as possibilidades futuras irão contribuir para que o agora seja vivido em sua plenitude e integralidade.

O desejo produz o impulso de vida para a tomada de atitude. Apesar de que o desejante que não confia em si mesmo, por falta de autoconhecimento e autoestima, começa a se apegar na esperança que, por sua vez, afasta o sentimento de felicidade do momento presente, impedindo-o de agir no aqui e agora.
Fazer psicoterapia ajuda a ampliação de consciência por meio da capacidade de se auto perceber, sem abandonar os desejos da alma, permitindo-se ser feliz com o que se tem e não com o que falta. É saber lidar melhor com seus momentos de tristeza e de alegria. É poder viver o ordinário (a rotina, o dia-a-dia) e o extraordinário (momentos especiais, bons ou não) como fases da própria existência, reconhecendo que em cada fase existe possibilidade de alegria e de tristeza, porém com mais sabedoria para aproveitar cada um deles.

Afinal de contas, qual a necessidade de preencher o que falta em nós se a sabedoria está em aceitar e viver bem com essa parte faltante?
EDMÉIA MARIANI Especialista em Psicologia Junguiana e Arteterapeuta.

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